Mana Raninha em Pemba

15 April 2005

Diário de uma malária XXX


Depois de 4 dias sem comer e com febre 24h por dia em que a temperatura mais baixa era de 38,5ºC, fui internada no hospital de Pemba. O hospital de Pemba à primeira vista é um horror! Duas pessoas na mesma cama, doentes espalhados pelo chão e em todos os cantos possíveis, sem a menor noção de higiene, enfim bem pior que o pior do nosso Portugal. Mesmo assim ainda fiquei num dos melhores quartos do hospital que acredito que muitos brancos não ficariam. Mas tudo é uma questão de hábito, confesso que agora até acho o hospital razoável, bem melhor que muitos centros de saúde das vilas do mato.
Mas nós, brancos, tivemos a sorte de nascer do ventre de uma mãe que mora num país desenvolvidíssimo (os standards aqui mudam...). Esta sorte que tive nunca a entenderei. Podia perfeitamente ter nascido de qualquer mãe africana do mato e ter a vida que elas têm mas isso não aconteceu...Assim tive o privilégio de, durante a doença, ter os meus pais comigo e ter ido para o Maputo para o Instituto do Coração, um hospital todo XPTO. Que bem que soube ter os paizinhos queridos comigo quando tava doente, que bem que soube ter uma cama e um lugar limpo, que bem que soube comer nutrientes de toda a espécie e feitio, que bem que soube um chuveiro, que bem que soube ter médicos e enfermeiros que o pareciam à séria, que bem que soube a sorte de poder ter tido tudo isto...
Só quando vemos o pior é que começamos a dar valor a tudo o que temos. Quando vivemos o pior ainda aprendemos a dar melhor esse valor. Em Portugal nunca tinha pensado antes na sorte que é ter, por exemplo, um médico para nos examinar... a hipótese de poder fazer uma análise de sangue viável, de ter uma casa-de-banho limpa, sei lá, tanta coisa.

Nas fotografias já me podem ver no bem bom. Também podem ver as crianças do Instituto do Coração (onde fiquei internada), todas vindas de vários lugares de Moçambique e à espera de uma equipa de médicos voluntários para as operarem. São crianças com sorte porque operações ao coração, para quem vem do mato é um mito.

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