Mana Raninha em Pemba

03 December 2005

Mais um Sábado no Lar

Bem, daqui a 8 dias vou embora de Pemba.....

Assim agora estou a aproveitar para me despedir das crianças, titios, amigos....
Amanhã será provavelmente o meu último dia no Lar da Esperança. Acham que hei-de aguentar as saudades? Eu ando duvidosa disso porque o aperto que anda cá no meu coração está a se fortalecer cada vez mais.....
Mas de todas as crianças do Lar a que me custa mais despedir é da Utassia (essa que tou a carregar nas costas).
A Utassia tem uma doença já crónica chamada "coração de boi" que pelo que percebi faz com que ela tenha o coração muito grande, o figado também enorme (ve-se bem pelo tamanho da barriga dela) e a médica diz que ela não deve de viver muito mais porque a doença já está muito avançada. Dá também mudanças de humor muito grandes por isso ela tanto está feliz a correr como totalmente calada a um canto.
Ou seja, a Utassia é mais uma das crianças que provavelmente não voltarei a ver mais.......
Este fim de semana ela tá doente tadinha e a médica diz que não pode apanhar sol nem brincar muito porque o seu coração não está nada bem. Tadinha nem pode brincar como os outros meninos.... :(
Mas está feliz e isso já me deixa radiante!!!!!

Utassia feliz!!!!




A brincarem com a bola que deu a tia Tété

01 December 2005

Casa Azul

Isaura


Isaura e Eu!

Muindi a tirar Fóto (digam lá que não é um amor..)

Massia com Titia

Titia Susana com Helder, Joanito e António

Pois é, já tou quase a ir embora....

Não sonham como já custa passear por estas ruas, ver os sorrisos das pessoas e pensar que não tarda muito vou deixar de os ver a todos.Já começa a doer bem mesmo ver o pôr-do-sol levar mais um dia porque os que ainda tenho aqui já são poucos. Gostava de conseguir partilhar o que tenho sentido estes últimos dias mas é difícil... É uma dor enorme misturada com uma alegria imensa.

É a dor de sentir que vou deixar todas estas pessoas e principalmente todas estas crianças. É o sofrimento de olhar para a cara do Muindi e pensar que posso nunca mais voltar a vê-lo......Bolas, custa tanto.....dói tanto! Será possível que me tenha apegado a ele como se fosse meu próprio filho? Acho que deixo estas perguntas para as psicologas que devem conseguir explicar-me se isto é possível.

Por outro lado sinto uma alegria enorme por sentir que sou das pessoas mais SORTUDAS do mundo!!! Este ano foi único, foi muita especial e se as saudades que sinto já doem cá dentro então isso quer dizer que foi muita bom certo? A sério, sinto-me mesmo sortuda por ter tido a hipotese de viver tudo o que vivi aqui, quer as coisas boas quer as más e a consiência do privilégio que tive dá-me inevitavelmente uma sensação de alegria imensa.

Mas vou deixar a minha saudade comigo e agora vou partilhar com voces mais uma história muito triste mas com um final feliz. Nas fotografias em cima podem ver que uma delas é de uma menina, a Isaura. A Isaura tem um atraso que não sei bem o que é. Todo o seu corpo está sempre contraído, as pernas nem conseguem esticar e não fala mas por outro lado tem um sorriso único que nos contagia o coração. Mas parece que o seu sorriso afinal não contagia o coração de todos, pelo menos a familia dela não se contagiou....

Há umas semanas que a Isaura não aparecia na Casa Azul. A mãe dela dizia que não podia ir deixa-la na estrada onde passa o carro da Laura para buscar a Isaura porque tinha muito que fazer. Na verdade a mãe de Isaura já nos tinha proposto ficarmos com Isaura permanentemente porque ela não queria a filha, era doente e isso era sinal de má sorte e ela não queria ficar mal falada e nem mal vista.Então começamos a ficar preocupadas com a ausencia de Isaura e Titia Susana e eu resolvemos fazer uma visita surpresa. A surpresa foi nossa quando lá chegámos e vimos como estava Isaura. Antes de entrarmos na casa a mamã pediu se podiamos esperar para ela arrumar umas coisas. Esperámos e quando finalmente pudemos entrar o meu coração caiu no chão... Isaura estava deitada numa cama de silha com uma chapa de zinco em cima. Estava enrolada em capulanas sujas e também ela estava toda suja de poeiras e cócó. O quarto estava escuro. Assim que nos viu entrar Isaura abriu um sorriso do tamanho do mundo. Estava magra, com feridas, suja... cortou o coração. Naquele minuto só tive vontade de agarrar nela e levá-la dali para fora. Mas não o fiz porque não podia....Ficámos ali um pouco a fazer companha a Isaura, a dar mimo. Ela estava feliz mas por outro lado também estava mais contraída que o normal, parecia que sentia dores, talvez da posição ou da chapa que tinha por baixo dela. Mesmo assim ela conseguia sorrir de vez em quando e eu não parava de olhar para o seu sorriso e pensar como era possível que uma mãe tratasse assim uma filha?..Mas quem sou eu para julgar... Ninguém! A cultura aqui é diferente. Aqui ter uma filha assim doente como a Isaura é razão para se excluir uma família da comunidade porque é sinal de má sorte. É motivo de vergonha. E quem somos nós para dizer que eles tão errados e que isso não faz sentido nenhum?... Não podemos fazer isso porque esta é a maneira de viver deles é a sua cultura.Mas custa ter de assistir a isto... Custou ver como a familia de Isaura a deixou literalmente jogada a um canto da casa, esquecida.

Bem mas como vos disse esta história tem um final feliz! Depois de assistir àquela cena em casa de Isaura apercebemo-nos que realmente a familia de Isaura não cuida dela e nem a quer por perto. Então contámos tudo à Laura e ela disse que assim sendo Isaura podia ficar permanentemente na Casa Azul mas para não desresponsabilizar a família da existencia da Isaura a Laura vai cobrar uma quantia pequenina por mês, só mesmo para eles continuarem com alguma responsabilidade sobre a criança.Agora já temos Isaura de volta à Casa Azul e ela está tão feliz que dá gosto. Aqui as condições não são um luxo mas pelo menos aqui gostam dela, cuidam dela e brincam com ela.